RELATO DE PARTO DOMICILIAR INESPERADO NARRADO PELO PAI

Ver um filho nascer é um privilégio enorme. É ficar ainda mais confuso sobre a vida, o universo e tudo mais, ("quem não está confuso, está mal informado") mas é um momento mágico, ímpar. Eu que já tinha visto dois, estava na expectativa do próximo, já conhecia a sensação. Seria possível ser mais intenso?!

   A maternidade é uma coisa que nunca poderei experimentar, fico daqui pensando que deve ser uma coisa muito louca e boa fazer crescer dentro de si um novo ser, uma nova pessoa. É, pra mim, no alto do meu ceticismo, o que o povo chama de sagrado.

   Mas o sistema não quer saber de sagrado. O sistema, já dizia Nascimento ("no pun intended"), é f***. Ele já roubara da Júlia dois partos, trocando-os por cesáreas completamente desnecessárias. Teo nasceu de um processo cirúrgico justificado por já terem 4 horas de bolsa rota. O trabalho de parto não tinha iniciado, não havia contrações, nem dilatação, "Oba! Vamos operar!"

   Bento foi ainda mais fácil: cesárea prévia. Risco aumentado de rotura uterina. Cesárea eletiva, na 40° semana de gestação. Numa quarta-feira, dia reservado na agenda médica para realização de cesáreas em série.

   Vieram ambos saudáveis, mamãe forte como uma leoa se recuperou das cirurgias mais rápido que a média, mas trazia consigo uma frustração: duas gestações sem parir. Vi essa frustração virar lagriminhas tímidas quando ela contava o caso, já tempos depois.

   Então, veio uma terceira gestação. Mamãe agora empoderada, cheia das informações corretas, se cercou de gente que cria no parto natural, que fazem tudo para que ele aconteça, que dão esse direito à mulher. Gente bonita essa!

   Vai ser natural! Esse era o plano! Vamos ao hospital apenas na hora certa. E vamos a um hospital em que isso seja rotina e não exceção (a que ponto chegamos: a exceção virar rotina). E se passaram 40 semanas, 10 luas, e mais alguns dias.

   "Você vai saber a hora", diziam todas. Em que lugar do mundo, uma mãe de dois filhos não saberia estar em trabalho de parto?! Num país em que a classe médica surrupia das mães esse direito, persuade com argumentos técnicos de riscos ora inexistentes, ora estatisticamente irrisórios, mas sempre gananciosos, transformam o sagrado em negócio, em comodidade.

   E a hora chegara: foi no finzinho do sábado, início de domingo. E estávamos apenas nós quatro em casa. Dores, algum sangramento, mais dores. Liga para a equipe: estamos a caminho. Levanto, não há muito o que eu possa fazer, tento tranquilizá-la, "vai dar tudo certo, a enfermeira já vem, iremos para o hospital já".

   Até que vem uma frase certeira: "não há tempo para o hospital! Ela está nascendo! Ela vai nascer aqui."
Não há tempo de mais nada! A vida pede passagem! 
Não adianta tentar segurar, não há volta, é uma explosão de forças, o universo se concentra ali naquele momento, a própria definição da magia: VAI NASCER!
NASCEU!

   Elisa escorregou macia e quente pelos meus braços, em cima da nossa cama, onde dormia mansamente seu irmão mais novo. A textura mais inusitada que eu já experimentei, a carga de emoção mais intensa da minha vida, abriu-se um hiato no tempo-espaço, e nesse átimo eterno eu a depositei no colo da mãe atônita.

  Os segundos ali se alongaram, até que Elisa primeiro abrisse o olho, depois desse um chorinho e então trocasse o mais longo olhar com a mulher, que renascera ali, realizada, parida enfim!

E eu me sinto o homem mais privilegiado do mundo porque vi minha filha nascer pelas minhas mãos. Talvez seja o mais próximo que chegarei da maternidade e estou plenamente satisfeito por isso!

Relato emocionante do papai Pablo Melo 




Elisa e sua mamãe Julia

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